quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Afirmações Identitárias de Alunos Negros das Séries Iniciais

AFIRMAÇÕES IDENTITÁRIAS DE ALUNOS NEGROS DAS  SÉRIES INICIAIS: PERCEPÇÕES E O FAZER DO PROFESSOR[1]
Patrícia  Costa da Silva[2]
Lucas Moreira[3]



RESUMO

O presente artigo objetiva Investigar a existência da atuação do professor para o fortalecimento das afirmações identitárias de alunos negros na escola, podendo analisar de que forma o professor atua no que diz respeito ao trato com as temáticas africanidade e negritude. Além disso, conhecer as diretrizes e orientações para uma educação antirracista e para reeducação das relações etnicorraciais, analisando e compreendendo o currículo do 1° e 5º ano das séries iniciais. De cunho qualitativo esta investigação foi elaborada por meio  de pesquisa  bibliográfica e com entrevista estruturada através do diálogo com gestores, docentes e alguns alunos. Com vistas a ampliar a discussão, foi fundamentada teoricamente nas ideias dos estudiosos:  Tomaz Tadeu da Silva (2009), Nilma Lino Gomes (2005 e 2007), Eliane Cavalleiro (2000), Eulália Bassedas(1999), Ary Ulmann(1991) e Stuart Hall(2006), o que proporcionou compreender e associar a teoria com tais práticas realizadas pelas profissionais e alunos, a partir da técnica de observação. Mesmo com os avanços, ainda há retrocessos em relação á afirmação identitária e aplicabilidade da Lei 10.639/03, acredito que essa mudança só ocorrerá a partir do respeito e do olhar humanizador .

Palavras-chave: Criança  Negra.  Identitária. Professor.

ABSTRACT
This article aims to investigate the existence of teacher performance to strengthen identity claims of black students in school and can analyze so that the teacher acts with regard to dealing with the issues Africanism and negritude. Also, knowing the guidelines and guidelines for anti-racist education and re-education of etnicorraciais relations,  analyzing and understanding the curriculum of the 1st and 5th the initial primary.  qualitative nature this research was developed through literature review and interview structured through dialogue with managers, teachers and some students. In order to broaden the discussion, it was theoretically grounded in the ideas of scholars: Tomaz Tadeu da Silva(2009), Nilma Lino Gomes(2005 E 2007), Eliane Cavalleiro(2000), Eulalia Bassedas(1999), Ary Ulmann(1991) and Stuart Hall(2006), which provided understand and associate the theory with such practices by professionals and students from the observation technique. Even with the advances, there are still setbacks in thier identity affirmation and applicability of Law 10.639 / 03, I believe that this change will only occur from the respect and look humanizing.
Keywords: Children Black.  Identity.    Teacher.
                      
INTRODUÇÃO


               O presente artigo vem explanar sobre o tema afirmações identitárias de alunos negros do 1° e 5° ano da Séries Iniciais, trazendo algumas definições e compreendendo as percepções e o fazer do professor, tanto quanto os objetivos específicos levantados no artigo. Este artigo tem como objetivo geral investigar a existência da atuação do professor para o fortalecimento das afirmações identitárias de alunos negros de uma escola municipal soteropolitana no bairro de Pau da Lima.  Como objetivos específicos: analisar de que forma ocorre a atuação do professor, no que diz respeito ao trato com as temáticas africanidade e negritude; discutir sobre processos de construção de identidade negra positiva com alunos negros do 1° e 5° ano das Séries Iniciais    na rede municipal de ensino soteropolitana; conhecer as diretrizes e orientações para uma educação antirracista e para reeducação das relações etnicorraciais.

A metodologia adotada para a escrita deste artigo foi de caráter qualitativo, com base na análise de dados das informações que foram colhidas, através de observações presenciais em sala de aula com o intuito de obter informações precisas e leituras em livros bibliográficos. Que para (Gil 2002, p. 162) “A metodologia, descreve-se os aspectos a serem seguidos na realização da pesquisa. Sua organização varia de acordo com as peculiaridades de cada pesquisa”. A pesquisa foi um estudo de campo, pois buscamos entender as atitudes dos alunos e dos professores com relação à identidade negra, sendo trabalhados dados reais.    Uma pesquisa de campo para Araújo, Leal, Oliveira (2008, p. 87). “é uma modalidade de estudo que deve possibilitar a quem pesquisa uma forma de compreender como se porta o objeto da pesquisa, como se porta numa comunidade e grupo de pessoas”. A técnica aplicada foi uma pesquisa estruturada, a técnica de coleta de informações que foi de entrevistas realizadas com professores das Séires Iniciais, especificamente que lecionam com turmas do 1° e 5° ano de uma escola municipal soteropolitana, buscando entender as dificuldades que os alunos negros demonstravam sobre sua identidade, e também com os gestores, podendo estas perguntas ser de forma ‘’estruturada”, com roteiros para entrevistas simples e flexíveis. Para (BERTUCCI (2013, p. 63),“uma pesquisa de campo além da utilização de uma observação direta onde se utilizará dos sentidos para avaliar o que se está observando a fim de dar subsídios para concluir a parte prática". A entrevista estruturada foi feita com questões onde o pesquisador pudesse fazer perguntas direcionadas a cada público alvo, usando um linguajar próprio para cada público entrevistado. Essas respostas respondem às hipóteses a qual o pesquisador possa usar os dados coletados para enriquecer seu artigo. A pesquisa de campo foi realizada no final do ano de 2014 e março de 2015, numa escola pública localizada no bairro de Pau da Lima, uma região metropolitana de Salvador. Foram elaborados roteiros de perguntas para as entrevistas sendo que quinze perguntas direcionadas aos gestores, quinze relacionadas aos professores e por fim mais quinze para os alunos.

É relevante mencionar que o presente artigo é composto de um título, um subtítulo e três seções: a primeira seção intitulada de Escola Plural e Currículo Singular, onde se discute sobre o currículo e como o negro era contemplado com esse currículo; na segunda seção: Lei nº 10.632/03- uma proposta para reeducação das relações etnicorraciais, e na terceira seção apresenta-se uma análise e diálogos com teóricos acerca dos dados coletados. Para a elaboração do artigo foram efetuadas consultas aos autores que embasaram este artigo: Tomaz Tadeu da Silva (2009), Nilma Lino Gomes (2005 e 2007), Eliane Cavalleiro (2000), Stuart Hall (2006), Eulália Bassedas (1999), Ary Ulmann (1991),  com a finalidade de entender como está sendo aplicado o currículo nas escolas e se este tem contemplado a Lei 10.639/03 nas mesmas, e como o professor está colocando em prática o que foi efetivado pela Lei. As considerações, por sua vez, têm por finalidade fazer uma síntese sobre os principais pontos discutidos ao longo do texto.

 1  ESCOLA PLURAL E O CURRÍCULO SINGULAR

A diversidade cultural sempre existiu e o negro sempre teve que se adequar a tudo que o europeu nos impôs ao longo da história; o negro teve que lutar para que esse contexto mudasse. A escola foi pensada em algo que todo educando fosse contemplado de forma igualitária, mas será que esse currículo foi elaborado pensando em todos?  Esse currículo foi tendo modificações, que fizeram com que o negro fosse contemplando e a sua cultura fosse mais estudada e conhecida. Para (Silva 2009, p. 35) “O currículo da escola está baseado na cultura dominante: ele se expressa na linguagem dominante, ele é transmitido na linguagem dominante, ele é transmitido através do código cultural dominante”. O currículo é desenvolvido de acordo com a cultura local, da vivência do educando, é modificado de acordo com a percepção dos envolvidos e responsáveis nas mudanças desse currículo. Mas de acordo com Miguel Arroyo (2006, p. 54) “os educandos nunca foram esquecidos nas propostas curriculares; a questão é com que olhar, foram e são vistos”, não é o currículo que diz como ele deve ser colocado em prática, mas são os sujeitos (nesse caso da educação), que os coloca em prática.
É importante enfatizar de forma bastante concisa que muitos fatos históricos importantes para grandes transformações sociais, econômicas e políticas aconteceram e marcaram positivamente toda a caminhada do universo do currículo escolar, nos levando a deixar de lado um passado dominado, para passarmos a viver uma nova história através da globalização, promovendo também assim inovações curriculares educacionais e deixando de lado as práticas supracitadas que só favoreciam ao grupo dominante; ainda de acordo com (Silva 2009, p.147), precisamos lembrar que “o currículo é uma questão de saber, identidade e poder ”. A partir da afirmação do autor, é importante ressaltar que o currículo é formado por tudo que fazemos, aprendemos, e colocamos em prática no decorrer da vida, e isso também acontece com os conhecimentos que acumulamos na nossa trajetória educacional, social, política e econômica. Esses requisitos nos remetem a pararmos de sonhar e colocarmos em prática uma cidadania participativa e que não era vista como importante. Com Pacheco (2001, p.16) temos a ideia de que o “Currículo corresponde a objetivos e conteúdos de um plano de estudos ou a um programa muito estruturado e organizado na base de acordo com a natureza das disciplinas”. Essa citação propicia uma visão mais abrangente do currículo por tratar-se de um conhecimento formado a partir daquilo que somos e fazemos no decorrer do nosso percurso diário, no tocante a complexidade, abrindo-nos espaços para debate e conscientização, para um aprendizado variado onde o aluno sinta-se à vontade em expressar seus sentimentos e possa usufruir dos seus direitos de cidadão, onde seus desejos e sonhos não sejam alvo de repressão e censuras.
Foram várias as tendências elaboradas em seus períodos no currículo escolar: a primeira foi a tradicional que tinha uma educação de crianças voltadas para adultos que servia ao mercado de trabalho; a segunda tinha ideias democráticas renovadoras, pois tinha uma preocupação com o desenvolvimento intelectual e cultural do sujeito, e a terceira, a pós-crítica, houve preocupações de responder aos diversos questionamentos que porventura viessem a surgir. Dessas tendências ocorreram transformações no currículo e no contexto escolar.
Dadas todas estas considerações é necessário enfocar a regulamentação do currículo tratada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), nº 9.394/96, que  foi sancionada em 20 de dezembro de 1996, pelo então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. A Lei inicia elencando conceitos e princípios norteadores que contribuem para amparar as matrizes curriculares de maneira favorável ao exercício das práticas pedagógicas determinantes para a educação escolar de sucesso, e desse modo, vem surgir então à necessidade de criar leis que proporcionem a liberdade de ação no espaço escolar, sendo este o principal motivo para que ele fosse organizado e dividido por disciplina a fim de facilitar o desenvolvimento, principalmente no que tange à educação.
Esta Lei tem como finalidade amparar e nortear as matrizes curriculares; a Lei determina prioridade à educação escolar vinculando ao mundo do trabalho e prática social coexistente nas instituições públicas e privadas, oferecendo o direito à educação e o dever de educar. Ainda na Lei de Diretrizes Bases da Educação (LDB), nº 9394/96, no Art. 26-A, parágrafo 4º, a questão do currículo voltou a ser tratada, dando um maior enfoque às questões étnicas raciais, entretanto, por considerar que a sociedade tem uma dinâmica própria, tornou-se necessário ampliar essa discussão com a elaboração e promulgação da Lei nº 10.639, de janeiro de 2003. É importante destacar a necessidade da escola em ampliar os conhecimentos dos alunos nesse “novo” mundo global, pois, com os avanços das ciências e das tecnologias faz-se necessário que os mesmos estejam preparados para conviver com as diversidades existentes no mundo. 
Segundo a pertinência da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), nº 9394/96, no Art. 26, inciso IV, o ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia. Tendo em vista as alterações realizadas, é válido destacar que o currículo será ampliado com a intenção de levar o aluno a conhecer a História do Brasil de maneira mais profunda, partindo da descoberta do Brasil, sua colonização, seus primeiros habitantes e a chegada dos europeus e os africanos em território brasileiro.

1.1   LEI nº 10.639/03: UMA PROPOSTA PARA REEDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ETNICORRACIAIS
A Lei nº 10.639/03 passou a vigorar no currículo escolar nacional a partir do dia 09 de janeiro de 2003, sancionada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta lei estabelece a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

        A Lei nº 10.639/03 alterou a Lei de Diretrizes e Bases, n° 9.394/96, tornando obrigatória a inclusão no currículo da Rede de Ensino a temática História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, mas isso não quer dizer que as escolas estejam cumprindo o que a Lei determina à risca, somente se falando da cultura afro no dia 20 de novembro e superficialmente, ou lembrando o que o negro passou de uma forma negativa. Essa Lei é fruto das reivindicações do Movimento Negro que desde a década de 40 tem exigido a mudança na Lei para que pudéssemos conhecer o racismo e aprendermos a combatê-lo.
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A Lei 10.639/03 é reconhecida de pleno direito e por prazo indeterminado, à competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial para receber e analisar denúncias de violação dos direitos humanos, conforme previsto no artigo 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Toda as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966.  Consciência  Legal Contra o Racismo (CLCR)2007, p. 31).
A Lei em vigor veio com políticas de reparação, reconhecimento e valorização da cultura afro-brasileira e africana e ações afirmativas, onde podemos citar a educação nas relações étnico racial, história e cultura afro-brasileira e africana, fortalecimento  de identidades e direitos, ações educativas de combate ao racismo e a discriminações, consciência política e histórica da diversidade, fortalecimento de identidade e de direitos, assim como tantas outras que possuem o mesmo objetivo.
A partir dos anos 80 larga parcela dos movimentos sociais brasileiros lutava contra as desigualdades sociais focando-se, quase que exclusivamente nas relações, capital x trabalho, nas determinações estruturais da economia, no sistema capitalista e na reprodução da força de trabalho, desconsiderando outras dimensões de exploração e subalternidade, construídas na dinâmica das relações socioeconômicas e culturais que forjaram a sociedade brasileira, violando o sujeito na sua subjetividade, no âmago da sua condição humana cristalizando hierarquias raciais e de gênero. SMEC (2005, p. 14.)

         Diante das colocações supracitadas, cabe ainda mencionar os movimentos sociais que foram contribuintes para fortalecer essa nova visão do humano, voltada para os direitos de igualdade social, cultural, econômica e subjetiva, no tocante ao cidadão negro, em vista que a sociedade brasileira ainda é formada, infelizmente, por uma relação de desigualdades, onde o mesmo é ainda muitas vezes tratado com características de submissão diante de uma estrutura social capitalista, dominante e injusta. Espera-se que tudo que aqui tenha sido mencionado seja colocado efetivamente em prática a fim de que haja a correção necessária e o respeito desejado aos direitos do cidadão negro brasileiro, e que não percamos de vista tudo o que foi conquistado até agora e que estejamos sempre atentos a tudo que se desenvolve no âmbito da instituição escolar,
De maneira que estes itens devam instituir as diretrizes explícitas no projeto de resolução e executadas pelos estabelecimentos de ensino em diferentes níveis e modalidade cabendo aos sistemas de ensino orientar e às artes promover a formação dos professores para o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana e para a educação das relações étnico-raciais, assim como supervisionar o cumprimento das diretrizes. (MEC. DCNE 2004, p.67).
Em face do exposto é necessário considerar que toda escola precisa preparar profissionais que se adequem a um trabalho cuja abordagem seja focada nas questões  que se referem à etnia, buscando reparar através da educação todos os danos causados aos negros desde a colonização até os dias atuais. Após apresentar estas questões é importante destacar a necessidade da escola ampliar os conhecimentos dos alunos, pois com os avanços das ciências e tecnologias faz-se necessário que os mesmos estejam preparados para conviver com as diversidades existentes.
Dadas às considerações arroladas nesta seção, é importante destacar que, após a conquista provinda da Lei nº 10.693/03, faz-se necessário um movimento de ampliação nas instituições escolares das discussões voltadas para as necessidades das demandas atuais dos discentes, que hoje fazem parte da nova conjuntura educacional brasileira, tornando-os aptos a conviver e integrar-se na sociedade tão permeada pelas múltiplas diferenças étnicas e sociais, sem restrições e compartilhando os direitos à cidadania. Na verdade, é preciso que a escola ao colocar em prática os temas previstos na Lei não sejam  colocados de forma solta; é preciso uma formação continuada, é preciso comprometimento, pois fazer de qualquer maneira as questões relacionadas aos negros irão ficar soltas e não terão interesse nenhum em trabalhar com as questões da História e Cultura afro-brasileira, o professor terá que apresentar os diversos temas relacionados à cultura afro para assim o aluno interessar-se pelo tema abordado. Para tanto, iremos discorrer sobre alguns subtítulos que para o sujeito são temas de difícil compreensão ou aceitação, e que para os alunos negros entenderem e aceitarem se torna mais difícil ainda.

1.2  O QUE É IDENTIDADE ?

        No dicionário Aurélio a definição de identidade é a qualidade de idêntico. É o reconhecimento de que o indivíduo é o próprio. É o conjunto de caracteres particulares, que identificam uma pessoa, como nome, data de nascimento, sexo, filiação, impressão digital, etc.(AURÉLIO, 2011, p. 506), existem diversas definições sobre identidade, mas a identidade da qual estamos falando e querendo que o sujeito de etnia negra entenda tem uma definição só, e que hoje o negro vem lutando para que o próprio negro aceite essa definição, como também os indivíduos da sociedade.  Para entendermos o que queremos sobre identidade devemos trazer algumas definições, a começar sobre cultura que para Ary Ulmann (1994, p. 84), define cultura como sendo “a superação daquilo que é dado pela natureza. Logo, é aquilo que o homem transforma”, é algo dado pela natureza, superado e transformado pelo homem conforme as suas necessidades. Já para José Luiz Santos (1994, p. 82), “Cultura é uma palavra de origem latina e seu significado original está ligado às atividades agrícolas”. Temos também a cultura nacional, que para Stuart Hall (2006, p. 50) “é um discurso- um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. Hall (2006, p. 51) continua afirmando “ As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a “nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades”. As  duas colocações de Hall nos leva a entender o quanto a cultura nos ajuda a reconhecer, identificar e construir a nossa identidade; é uma maneira de podermos definir essa identidade.

           O processo para construir a identidade negra no Brasil é algo confuso, pois se fala muito da mistura de raças que vem ao longo da nossa história, mas na realidade esse discurso é muito contraditório.

          De acordo com o dicionário Júnior (2012, p. 349), “identidade vem a ser igualdade total, reconhecimento de que é uma pessoa e não outra”, você não pode dizer que é uma  pessoa sendo que você é outra, ninguém pode se passar por alguém que não seja”. Para Hall:

A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social. Em essência, o argumento é o seguinte: as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. (Hall, 2006, p.7).


            Essa identidade está deixando as pessoas confusas, pois não se sabe como definir sua identidade, ainda tem a crise de identidade, quando você acha que é uma coisa, a sociedade diz que você é outra, isso fica confuso na cabeça. Você decidir, perceber e se identificar demora, não é fácil, você não quer desagradar o grupo ao qual você faz parte. Com relação à identidade, Hall (2006, p. 38) diz que  “a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo "imaginário" ou fantasiado sobre sua unidade”, você não nasce com a identidade definida, ela é construída ao longo do tempo, e Hall (2006, p. 39) continua sua concepção de identidade quando diz: “Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento”. A identidade surge não tanto da plenitude, mas de uma falta de inteireza que é "preenchida" a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. Isto é, às vezes acreditamos no que o outro diz de nós e não algo que afirmamos ser. Na verdade a identidade não é definida de acordo com a vontade dos outros. Para a antropóloga Silvia Novaes (1993, p. 25), “a identidade não se prende apenas ao nível da cultura. Ela envolve, também, os níveis  sociopolítico e histórico em cada sociedade”. Assim, a identidade vista de uma forma mais ampla e genérica, é invocada quando “um grupo reivindica uma maior visibilidade social face do apagamento a que foi, historicamente, submetido”. Isto é algo que envolve um grupo de indivíduos para que assim possam definir sua identidade, reivindicando seus direitos grupalmente, para que assim possam escrever uma nova história buscando apagar o passado histórico, com identidades definidas tanto a social quanto a pessoal, assim ajudando a definir a identidade negra através de um longo processo.
                     



1.3 E IDENTIDADE NEGRA?

          Essas identidades sociais, individuais e culturais fazem parte da vida do sujeito, mas o foco principal neste artigo é a identidade negra que é um processo ligado a diversos níveis sociais e vem sofrendo transformação através da globalização, no decorrer das mudanças da sociedade. A construção dessa identidade é difícil, complexa, mas não impossível.  Nilma Lino Gomes (2005, p. 43) afirma  que :

Como em outros processos identitários, a identidade negra se constrói gradativamente, num movimento que envolve inúmeras variáveis, causas e efeitos, desde as primeiras relações estabelecidas no grupo social mais íntimo, no qual os contatos pessoais se estabelecem permeados de sanções e afetividades e onde se elaboram os primeiros ensaios de uma futura visão de mundo.

         Geralmente este processo se inicia na família e vai criando ramificações e desdobramentos a partir das outras relações que o sujeito estabelece. É preciso você se aceitar para que o outro o respeite como você é, não precisa se ver de acordo com o que o outro acha que você é. Sendo assim, Gomes (2005, p. 43) diz que: “construir uma identidade negra positiva em uma sociedade que, historicamente, ensina aos negros, desde muito cedo, que para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo é um desafio enfrentado pelos negros e pelas negras brasileiros (as)”, construir a identidade negra no Brasil é uma questão bem complexa, pois a sociedade apresenta aos negros que devem ser submissos, que os papéis nas novelas e filmes têm que ser o menor. Por sua vez, o professor chegar à sala de aula com o discurso que o negro deve se aceitar, não deve se envergonhar de que raça ou etnia ele faça parte é algo difícil, mas que esse professor esteja bem resolvido consigo mesmo até porque esses profissionais na sua infância e juventude não tiveram essa oportunidade de entender a qual grupo racial ele pertence e nem se falavam em reconhecimento identitário. Hoje para esse professor contemplar essa Lei é preciso ele próprio entender a qual grupo étnico pertence para depois trabalhar com esse aluno.

                          



2.0  COMO A ESCOLA TEM TRABALHADO NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DE ALUNOS NEGROS DAS SÉRIES INICIAIS

 Ao iniciar o trabalho de observação de campo para construção do presente texto crítico e reflexivo, foi realizada inicialmente uma visita em uma escola pré-selecionada por suas características e localização, da rede pública de ensino no Bairro de Pau da Lima com a intenção de obter dados através da observação direta de aulas ministradas por docentes que primassem em seu trabalho, o estudo das matrizes curriculares previstas na Lei aqui estudada, buscando conferir através das práticas pedagógicas desenvolvidas pela docente, aquilo que o gestor havia informado que não é uma prática na instituição. O tempo passado naquele ambiente possibilitou-nos ver que a instituição é uma escola pública como outra qualquer. Fomos apresentadas ao corpo docente da instituição, gestores e alunos. Segundo uma das professoras, nessa escola existe um só professor para cada turma; a professora explicava o assunto de forma clara e precisa como em qualquer outra escola. Na primeira visita estava sendo aplicada uma revisão de Língua Portuguesa, onde a metodologia utilizada foram perguntas seguidas de respostas dadas pelo grupo. Em outro dia de visita, a metodologia utilizada e observada foi à mesma, sendo que, desta vez, a disciplina era a Matemática envolvendo cálculos e problemas a serem respondidos em sala de aula para posterior correção e discussão acerca dos resultados encontrados.

A partir do relato da docente responsável pela classe nos foi informado que algumas ações complementares foram realizadas abrangendo os conteúdos previstos na matriz curricular da instituição no decorrer de todo o ano letivo, mesmo com alguns problemas entre os gestores e professores que na maioria das vezes discordam do trabalho, o projeto termina sendo realizado e concretizado com êxito. São trabalhos de conscientização, pesquisas, passeios relacionados à cultura. Como bem nos diz Bassedas, (1999, p. 181) “(...) é preciso proporcionar valorização de uma maneira consciente e intencional (...)” Enquanto conversávamos, duas alunas começaram a se estranhar na sala de aula agredindo-se verbalmente no que diz respeito à cor da pele, e, ao saber então, a professora interferiu aproveitando para conscientizá-las  sem preconceitos ou discriminação racial ou qualquer outra, a fim de tornar um clima saudável e propício para uma boa aprendizagem, enfatizando diante da situação que os alunos deveriam comportar-se de maneira educada e igualitária  com todos.

           A docente, em dado momento, precisou chamar atenção deles, fazendo-os refletir que, aquele dia em específico, seria o último dia de aula, e que eles só retornariam no próximo dia para o início das avaliações finais da quarta unidade, o que deixava claro que o ano letivo estava terminando (agiu dessa forma porque as brincadeiras em sala de aula estavam ultrapassando o limite aceitável), e por esse motivo deveriam também estar em paz consigo mesmos e com todos para que obtivessem bons resultados. Pôde-se observar a partir desse episódio que nem tudo é perfeito ou possível quando o assunto é educação escolar; a diversidade tão rica que permeia esse ambiente é também muitas vezes o grande entrave para o trato das questões étnicas raciais, pois, apesar do bom relacionamento observado entre todos, alunos e docentes, quando questões múltiplas estão envolvidas, alunos com alunos podem vivenciar neste mesmo espaço conflitos que precisam ser mediados com muito cuidado e sabedoria; imprevistos relacionais acontecem a todo instante e somente através do respeito mútuo é que poderemos usufruir de um ambiente agradável e harmonioso para todos. Uma escola onde todos têm os mesmos direitos à vez e à voz, independentemente da sua condição social ou racial, a liberdade democrática e participativa é uma realidade e não uma utopia.

A diversidade entre indivíduos é uma condição da natureza humana e está presente na abordagem pedagógica. Isso não significa que lidar com ela seja simples, pois, ainda hoje, está-se aprendendo a conviver com as diferenças. Nem toda diversidade, no entanto, significa desigualdade, e este é o caso da diversidade étnico racial e cultural. SILVA (2007, p. 2)


            A intervenção pedagógica não é algo simples, mas deve ser de forma contínua e consciente do papel do educador, sendo assim a diversidade sempre irá existir, pois o sujeito não pensa igual, é preciso aprender a lidar com as diferenças.
A escola da qual fizemos a pesquisa de campo pôde-se perceber o interesse em ajudar esse aluno na afirmação identitária, como trabalho em conjunto para realizar projetos voltados a esse reconhecimento por maiores dificuldades encontradas, podendo assim  esse aluno de uma forma geral valorizar, afirmar e respeitar o negro e sua cultura. Trabalhar o afeto, ajudando na elevação da auto estima através de conversas, jogos, atividades lúdicas, e palestras que são importantes nesse processo de afirmação e conscientização tanto da criança negra quanto da criança considerada branca. Com relação às mudanças na Lei nº 9394/96 para nº 10.639/03, a escola está procurando se adequar, a priori está fazendo mudanças no PPP ( Projeto Político Pedagógico), que é antigo, e  não foi elaborado pela equipe que lá trabalha. Na verdade, a gestão nos informou que haverá uma reunião para informar à equipe escolar: pais, professores e alunos, quando irão elaborar um novo PPP já de acordo com o previsto na Lei, para que todos os envolvidos possam ser beneficiados e não se sintam excluídos.





2.1 O PRECONCEITO  RACIAL E AS TURMAS DO 1° e 5° ANO DAS SÉRIES INICIAIS

              A escola tem um papel muito importante na vida do sujeito, por isso nas questões relacionadas à afirmação identitária é viável o professor deixar claro quais as dificuldades e problemas que esse aluno negro irá enfrentar com relação à afirmação da sua identidade negra; alguns desses problemas é o preconceito.

            O preconceito é uma atitude julgadora de um indivíduo para com o outro mesmo sem se conhecer, é você falar ou ter atitude que faça com que o indivíduo se sinta diminuído perante outros. Na sociedade, em uma instituição escolar, na vida, devemos levar em conta fatores aos quais devemos identificar as formas e manifestações racistas, para assim procurar resolver tais situações encontradas nas escolas por alunos negros, ajudando-os a se defender de forma que ele não venha se conformar com a agressão (não física), mas sabendo se firmar diante de tais situações como: humilhações, xingamentos, apelidos pejorativos, piadas e que não passe despercebido pela pessoa agredida. Para Mazzon ( 2013, p. 34) “ O racismo manifesta-se de muitos outros jeitos na escola, nem sempre entendidos dessa forma por quem o pratica e por quem é vítima dele”, na verdade, quem faz não percebe porque não é consigo, quem faz, na maioria das vezes, acha que é uma brincadeira, que não está ofendendo.

              Falar sobre preconceito é algo que requer estudos, saber lidar com essa temática, pois na maioria das vezes quem fala pode ser mal compreendida. Para Cavalleiro (2000, p. 25-26)
“ O preconceito representa um requisito importante para a manutenção da discriminação étnica, visto que um indivíduo preconceituoso não aceita, positivamente, o contato com negros na vida social, o que para estes pode acarretar prejuízos psicológicos decorrentes das experiências traumáticas.”

               O indivíduo preconceituoso de forma nenhuma quer contatos com o negro; para ele tudo o que lhe ocorrer de ruim foi o negro. Com os alunos negros ocorrem muito essas atitudes, na maioria das vezes provém de outro negro que não se considera negro.

               Para GOMES (2005, p. 55) “a perpetuação do preconceito racial em nosso país revela a existência de um sistema social racista que possui mecanismos para operar as desigualdades raciais dentro da sociedade”. A sociedade tenta cobrir atitudes racistas dizendo que o preconceito não existe, mas só sabe que existe quem sente na pele. Na escola o preconceito passa por algumas maquiagens, como assim? Os alunos negros são ofendidos, são maltratados, mas a pessoa que ofende ou o próprio professor por ter dificuldades de lidar com o assunto faz de conta que não entendeu como ofensa, mas algo natural. Com essas atitudes o aluno negro acaba ficando com a autoestima  baixa e a sua identidade negra será negativa, não haverá aceitação em ser negro e na maioria das vezes nem gosta de tocar no assunto sobre ser negro ou não. (Gomes  2005, p. 43)  diz que “ Construir uma identidade negra positiva em uma sociedade que, historicamente, ensina os negros, desde muito cedo a negar-se a si mesmo”, é muito difícil numa sociedade tão racista como a nossa o negro ter uma identidade negra positiva, porque é invisível nas lojas, restaurantes, escolas. Se você não está bem resolvido sobre a sua identidade, você vive a negar-se ser negro, na verdade nada para o negro é fácil, enfrenta-se muitas dificuldades em todas as áreas, inclusive a de ser aceito na sociedade, se você for famoso, rico, é mais fácil, isso não quer dizer que você não irá encontrar dificuldades, a aceitação é diferente.

            O preconceito racial é algo que não nasce com o sujeito; ele vai aprendendo durante o convívio na sociedade, ele vê o adulto sendo preconceituoso sendo que logo após ocorrer alguma situação parecida com o que ele viu o adulto fazer, provavelmente irá repetir a mesma atitude podendo assim se tornar mais um preconceituoso. Este preconceito racial existia, e continua existindo, mas cabe a cada sujeito envolvido com a escola lutar, buscar mecanismos que ajude aos alunos lidarem com as atitudes preconceituosas e saberem se defender de tais atitudes. Pesquisar as turmas de 1° e 5° ano nos mostrou que o preconceito é desenvolvido ou aprendido desde cedo, pois os alunos do 1° ano acabaram de sair da Educação Infantil. Então percebe- se que o trabalho nas escolas buscando trabalhar as relações etnicorraciais colabora para que as crianças aprendam a lidar com questões raciais principalmente e que os alunos negros saibam lidar com essas questões.

             De fato, o preconceito racial não favorece a relação das pessoas na sociedade, e sim atrapalha, fazendo com que a criança se sinta inferior com relação à aparência, nos gestos, nos traços, nos trajes e no dialeto que o sujeito apresente. Mas, se for de certo grupo étnico, o preconceito fica evidente e esse sujeito na maioria das vezes nega-se a pertencer a esse grupo étnico.



2.2   RELAÇÕES ETNICORRACIAIS DOS EDUCANDOS DA ESCOLA VISITADA


           Quando falamos de preconceito racial, estamos falando de algo relacionado a um grupo étnico, por isso é importante definirmos as relações etnicorraciais que segundo o as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Etnicorraciais (2005, p.12)  diz respeito aos” conjuntos de ações políticas dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais, orientadas para a oferta de tratamento diferenciado”. São políticas que servem como uma forma de reparação à forma de como o negro era visto como objeto e não como gente. Dessa forma essas ações foram elaboradas para corrigir tais atitudes e desigualdades. Nesse caso foi necessário observar na pesquisa de campo como essas relações etnicorraciais dos educandos eram colocadas em prática.

           A pesquisa de campo foi realizada no período de seis meses, numa escola pública no bairro de Pau da Lima, uma região metropolitana de Salvador. Foram elaborados três roteiros de perguntas: quinze perguntas direcionadas aos gestores, quinze direcionadas a professores que lecionam com turmas do 1° e 5° ano Séries Iniciais e mais quinze direcionadas para alunos (sendo que não foram contemplados todos os alunos do 1° e 5° ano devido à quantidade muito alta de alunos). Os alunos selecionados para responder as perguntas foram escolhidos através das observações feitas antes da realização da entrevista. Seguimos alguns critérios: escolhemos os alunos que ficavam separados dos demais colegas por se sentirem inferiores, os que mais eram discriminados pelos colegas e dois alunos que tratavam esses colegas com preconceito e indiferença para entendermos porque eles agiam dessa maneira. As entrevistas foram feitas separadas. Umas das perguntas aos entrevistados (alunos): você é negro, branco ou índio? As respostas foram significantes.

           O aluno A respondeu que era negro por causa da cor da pele, que se olhássemos  para ele já saberíamos que ele era negro; o aluno B respondeu que era negro, porque os familiares diziam que ele era negro, mas que ele não achava que era negro, pois a cor da pele era mais clara que a do colega A; já o aluno C respondeu que era moreno até porque dos três a pele dele era mais clara que os outros e o aluno D respondeu que era negro, porque negro tem a pele da cor dele.
            A partir daí observa-se quão dificuldades eles devem ter ao se relacionar e se identificar como sujeito e suas origens étnicas. No decorrer da entrevista, eles foram se desprendendo e entendendo o que estávamos discutindo: suas origens e raça.  Perguntamos sobre o que eles entendem sobre preconceito, sobre discriminação, como o professor trabalha sobre identidade negra, de que forma eles conseguem ver o trato perante a mídia com relação ao negro; essa pergunta sobre a mídia nos deixou bastante triste, pois o aluno A respondeu que na novela as crianças de “Carrossel”, por exemplo, só tinha Cirilo de preto que era muito humilhado e maltratado por “Maria Joaquina”, então esse aluno acha que é verdade mesmo que o negro tem que sempre ficar de cabeça baixa, as pessoas brancas podem humilhá-los e ele não ter reação nenhuma, pois o menino negro da novela fazia assim (aluno é do 1° ano); já o B “No filme de Barbie não tem ninguém com o cabelo igual ao meu nem o seu pró, nós não poderíamos fazer esse filme, temos o cabelo duro”, então eles não se vêem inseridos na mídia só com papéis inferiores. O aluno C foi bem mais enfático (é do 5° ano), “na televisão tem muitos negros, mas aparece mais no jornal como ladrão, nas novelas ou é empregada doméstica ou motorista de um branco ou se prostituindo, não vejo coisa boa falando da gente, mas eu não me sinto inferior”. “Eu estou estudando porque quero fazer tudo diferente, e quando a senhora me reconhecer na televisão, vai dizer: olha aquele aluno que me deu entrevista, ele tem um emprego importante, é delegado da polícia civil.” Essa resposta nos deixou com o coração alegre, pois pelo menos alguns desses alunos estão abrindo a mente e vendo que eles  podem  fazer a mudança, não se deve esperar para que façam por eles. O aluno D respondeu que não dá importância ao que passa na televisão falando do negro, pois ele não vive o que a mídia diz.

           Em outra parte da entrevista perguntamos sobre discriminação no seu bairro e o aluno  A nos disse que é normal xingamentos, brigas e se for com “preto” então, aí é que a coisa é pior; já o aluno B disse que a maioria dos moradores da comunidade são negros, os mais velhos não se acham negros. Se surge alguma coisa, eles nem sabe quem foi e já dizem logo “ deve ter sido aquele preto, não vejo tratamento de respeito. Já o aluno C disse que não vê essas coisas no bairro, tem brigas mas não por ser preto ou branco. O D respondeu que em todos os bairros têm briga, não é só no deles porque tem muitos negros.
           Houve um projeto na escola durante o período de observação para elevação da auto estima, intitulado: Crespo, Alisado, Liso, Ondulado, Imaginário, Esse é o meu Cabelo. O projeto trabalhou com palestras, contos, apresentações sobre as questões afro-brasileiras, maquiagens e penteados nos cabelos das meninas para seção fotográfica, finalizando com exposição das fotos. Para os meninos foram apresentadas as danças como hip hop, rapper, pois eles achavam que só o samba de roda era dança de negro; foram feitas fotos com roupas de rapper e hip hop. Eles ficaram encantados, se divertiram e ao mesmo tempo aprenderam. Na realidade, eles passaram a entender que preconceito, discriminação poderiam ser de várias formas, não só o racial. Os alunos falaram sobre os apelidos que veem os colegas chamando o outro de dentuço, gordo, que isso também é preconceito, e trouxemos no nosso artigo, pois a visão deles nesse período foi se abrindo e cremos que no futuro eles irão se respeitar, aceitar-se como negro e ajudar outras pessoas nessa afirmação identitária.

2.3 REVELANDO OS DADOS: AS DIFICULDADES ENCONTRADAS PELOS PROFESSORES E GESTORES COM RELAÇÃO À AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA DOS ALUNOS NEGROS DA ESCOLA VISITADA

         A análise apresentada partiu da pesquisa que foi feita com professoras da escola visitada, da gestora e vice-gestora, para sabermos como a Lei nº 10.639/03 está na prática, e como estão fazendo esse trabalho para contribuírem na afirmação dos alunos negros que lá estudam.  Essas profissionais já trabalham com educação há muitos anos, e com o passar do tempo e das leis já houve cursos apresentando a Lei acima citada.

         Entrevistamos duas professoras, uma de cada turma. Uma das perguntas para elas foi: você conhece a Lei nº 10.639/03? Do que trata? A professora A respondeu que não, já ouviu falar por alto, mas nunca se interessou, pois são temas bem complexos para trabalhar. A professora B falou que sabe que a Lei existe, e que sempre procura falar para os alunos para que eles não tenham dificuldades com relação aos assuntos que diz respeito ao negro. São professoras que trabalham na mesma escola, mas, observamos o interesse de uma delas, mesmo as duas estando sempre em reuniões pedagógicas e os assuntos relacionados à Lei nº 10.639/03, que falam sobre questões culturais, afro-brasileiras. Nesse caso, percebe-se da parte do professor o interesse de se inteirar do assunto para que assim ajude seus alunos; eles devem ser preparados para atuar com esses alunos não só os negros, para que possam ajudá-los no enfrentamento relacionado às desigualdades. Para ( Cavalleiro , 2003, p. 28),

(...) a formação dos futuros profissionais - e até mesmo dos profissionais que atuam nas instituições escolares - para que tratem com respeito e dignidade as diferenças raciais no âmbito escolar, contribuindo para o enfrentamento e a superação das desigualdades, precisa incorporar novos valores nos profissionais que lidam com as crianças e, consequentemente, em seus familiares.


Esses profissionais devem estar compromissados com a educação desse aluno, pois se fala muito no futuro do país, logo devemos trabalhar de maneira que esse futuro não seja problemático, e sim significativo na vida desses alunos.
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 No decorrer da entrevista, foi perguntado se as entrevistadas já tinham sofrido alguma ação discriminatória durante a adolescência, e as respostas foram as seguintes: a gestora (que é negra) nos informou que sempre foi discriminada, pois os pais são de classe média e ela sempre estudou em escola particular, onde a maioria dos alunos era de cor branca. Numa certa feita, mês de festas juninas, era o momento de eleição para desfile das rainhas e estavam selecionando as meninas; um dos colegas perguntou à professora porque o nome dela não estava na lista e a mesma respondeu “ Não existe rainha do milho queimado”, imagina-se uma frase dita quando ela era adolescente e quando se reporta a falar sobre o ocorrido os olhos mareiam. E esse ocorrido com as outras crianças, como reagiriam. Ela também nos disse da dificuldade de algum menino se interessar por ela, às vezes tinham medo do que os pais iriam falar. Já a vice-gestora, nos respondeu que não enfrentou problemas, pois, no período da adolescência, a cor da sua pele era tida como branca.

Perguntamos às professoras qual era seu papel no processo de afirmação identitária dos seus alunos negros: a professora A deu a seguinte resposta: não achava que esse reconhecimento teria que ter a minha ajuda para acontecer, mas com essa turma, em especial, teve que fazer com que eles percebessem que vão ter contatos com outras culturas, e que não se sintam inferiores, não se excluam.” A professora B respondeu que fala sempre com seus alunos que para eles se aceitarem negro ou branco, e que eles entendam  que a cor da sua pele não revela o caráter, que ele é importante sendo negro ou não. O educador deve ter cuidado ao se reportar a um aluno, ele é peça fundamental nessa afirmação identitária, por isso deve-se ter noção de quão importante é o aluno saber agir de forma positiva, aceitando-se negro e sabendo respeitar o outro, ele sendo negro, branco ou índio.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

           Este artigo foi elaborado em três etapas: a primeira, voltada para o currículo e suas peculiaridades, a segunda, abordando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, nº 9.394/96 (LDB) com a intervenção da Lei nº 10.639/03 e a terceira, reportando a pesquisa de campo analisando de maneira mais detalhada a aplicação da Lei nº 10.639/03, realizada na escola visitada no bairro de Pau da Lima onde se firmou um olhar mais preciso naquilo que menciona a Lei nº 10.639/03.

Vale ressaltar que o aluno dentro desse contexto não é somente o sujeito da aprendizagem, mas aquele que ajuda o outro a fortalecer o que seu grupo produz, tais como: valores, linguagem e o próprio conhecimento. Sendo assim, podemos inferir que discutir sobre currículo escolar, em especial sob o novo olhar que se requer ter sobre as diversidades culturais que permeiam esse universo, é algo bastante complexo, pois, acabamos por muitas vezes reproduzindo consciente ou inconscientemente antigos conceitos sobre os papéis representados por cada indivíduo que compartilha o espaço da escola, o que torna de extrema relevância a reflexão aqui realizada. O professor, portanto, tem um papel explícito de interferir no processo de educação dos alunos, diferentemente de situações informais nas quais as crianças aprendem em um ambiente cultural. Torna-se relevante o papel do docente em orientar os alunos, e daí sua grande importância em fortalecer a implantação da Lei nº 10.639/03 nas escolas.  Isso nos mostra que os processos pedagógicos intencionais representam o objeto principal de intervenção e auxiliam na construção ou reformulação de conceitos.
Embora exista ainda muito por se fazer no contexto escolar acerca da aplicabilidade da Lei estudada e discutida, fica a certeza de que estamos no caminho certo, e que, todas as dificuldades e problemas decorrentes da maneira como o processo tem acontecido na atualidade e de como as instituições escolares têm tratado a questão, em um futuro bem próximo terão sido válidas, pois, aqueles que primam em seu trabalho pedagógico colocar em prática tudo aquilo que propõe a Lei nº 10.639/03, e que é obrigatório, não só obtém sucesso na caminhada escolar de seu alunado como cumpre efetivamente o seu papel social, ajudando a formar cidadãos conscientes de sua história e de seu povo, assim como podemos testemunhar na Escola que serviu como instrumento de estudo para o presente texto. Essa nova dinâmica escolar precisa ser incorporada com urgência por todas as instituições escolares do Brasil, pois, só assim, estaremos formando verdadeiros cidadãos brasileiros.
Conforme observado durante o desenvolvimento do presente estudo, a Lei nº 10.639/03 veio para mudar, porém, a jornada é longa e espinhosa, e faz-se necessário empenho de todos os educadores do país para que a marcha iniciada não pare, e, para que em um futuro bem próximo, venhamos contemplar os frutos dessa mudança de paradigma e que as crianças negras aprendam desde cedo a se afirmar identitariamente para que cresçam sujeitos felizes e que não precisem ficar se escondendo com vergonha da cor da sua pele ou do jeito do seu cabelo, que saibam se defender das ações e reações da sociedade.
 Sendo assim, busca-se por meio deste trabalho compreender como são construídas as relações raciais num dos espaços da superestrutura social do país, que é a escola, e como ela contribui para a formação da identidade das crianças negras. A importância da diversidade e a igualdade de todos os indivíduos perante a lei, legitimando a verdadeira democracia.
 Em suma, o diálogo sobre o fortalecimento identitário nas séries iniciais contribui com o respeito às diferenças como um elo de união, no qual adultos e crianças formam uma grande ligação com a diversidade cultural do país, que se faz presente na adoção de políticas públicas de combate ao racismo e pela igualdade racial, a fim de resgatar e reparar as injustiças históricas que perpassam ainda no século.

REFERÊNCIAS

ULMANN, Ary Junior. O homem e a cultura. Petrópolis:  Vozes,1991.
DICIONÁRIO, Aurélio. São Paulo, 2008, p. 506: Editora FTD.
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CAVALLEIRO, Eliane. Do silêncio do lar ao silêncio escolar. São Paulo: Editora Contexto  (2000, p. 25-26-28)
BASSEDAS, Eulália, Aprender e Ensinar na Educação Infantil / Eulália Bassedas
Teresa Huguet & Isabel Solé. Porto Alegre: Artes Médicas. Sul, (1999 P. 172-181).
PACHECO, José Augusto. “Apontamento Sobre Educação”, 2001, p.16. www.ramirodoctourcom-home.
SANTOS, José  Luiz . O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994
DICIONÁRIO, Júnior. São Paulo, 2011, p. 349: Editora FTD.

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Prefeitura Municipal de Salvador. Secretaria Municipal da Educação e Cultura. Diretrizes Curriculares Para a Inclusão da Cultura Afro-Brasileira e Africana no Sistema Municipal de Ensino de Salvador. (2005, p. 29).
HALL, Stuart. Identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP& A,
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SILVA, Tomaz Tadeu da. Documento de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte,  Autêntica, 1999, p.156.











[1] Trabalho apresentado como requisito final para a conclusão do curso de Licenciatura em Pedagogia.
[2] Graduanda do curso de Licenciatura em Pedagogia. Email:patriciapedrao22@hotmail.com
[3] Graduado em Letras com Língua Inglesa e Respectivas Literaturas (UNIJORGE). Email: Lucas.lucasroland@gmail.com

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