quarta-feira, 22 de julho de 2015

LER E SER VIRTUOSO NO SÉCULO XV. Mestranda Alba Belmira Pereira

LER E SER VIRTUOSO NO SÉCULO XV. Mestranda Alba Belmira Pereira 
2015/07/15

(Resenha da obra de SILVA, Michelle Souza e. Ler e Ser Virtuoso no Século XV. São Paulo: Editora Unesp, 2012.)

      Michelle Souza e Silva possui graduação (2007) e mestrado (2009) em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Atualmente é doutora pela mesma instituição.

         O primeiro interesse ao escrever um livro é registrar algo que será lido por alguém em algum momento. A escrita de um livro preserva o saber e o conhecimento. Em Portugal, esta produção, no decorrer do século XV, foi diversificada e abundante devido a vários fatores como: condições periféricas do reino, a perda do status do latim e a modernização do  idioma português.
        Antes da imprensa, as tiragens de tais escritos eram inexpressivas, pois o trabalho se dava por cópias individuais. Eram considerados artigos de luxo e lhes eram atribuídos valores materiais e sentimentais. No século XV, o livro torna-se um instrumento mais familiarizado da nobreza, aumentando o número de bibliotecas laicas.
      Após a crise de 1383 – 1385, quando Portugal, proclama sua independência de Castela, ascende ao trono uma nova dinastia, a de Avis, fundada por D. João I. Após essa independência, houve o fortalecimento de uma produção literária com o intuito de formar a nobreza. Um movimento de exaltação do livro e daquilo que ele proporciona, ganha intensidade em Portugal.
      Esse movimento não se limita somente a exaltar o valor dos livros, mas há também a justificativa de se manter os saberes e explicitam-se as motivações principais de se escrever. Destaca-se a transmissão de bons ensinamentos, sobretudo de teor moral. Os três mestres de Avis D. João I (1357 – 1433), D. Duarte (1391 – 1438) e o Infante D. Pedro (1392 – 1449), deixaram escritos que tratam das posturas para uma formação virtuosa do príncipe  e estabelecer um modelo ideal de realeza, ou seja, unificavam-se em um ideal pedagógico, pela preocupação em divulgar determinados valores e instruir os seus leitores a partilharem desses valores. Os valores defendidos, além de ajudarem na tarefa de governar, também eram prescrições de como alcançar a salvação.
       A pedagogia principesca tem como base a formação espiritual, utilizando fontes de conhecimento medievais como as hagiografias, os livros de orações e alegorias. A verdade era aquela deixada por Deus, a principal fonte que os homens utilizavam para sustentação de seus atos e argumentos era a Bíblia. Os mestres de Avis, além de escreverem textos religiosos e alegorias, buscaram nas obras clássicas da filosofia antiga e medieval a sustentação de suas teses.
      De Aristóteles aos Santos Padres da Igreja, e os filósofos como Cícero, Sêneca, Avicena, vários eram os grandes nomes do pensamento filosófico citados pelos medievais. A importância dos livros desses sábios constituem uma gama de reflexões, ora fundadoras, ora fundamentadoras do pensamento dos escritores quatrocentistas portugueses.
        Toda a produção escrita da época, embora bem diversificada, há um ponto em comum: o intuito pedagógico. A tarefa de educar ganha espaço nos livros a que confere uma nova importância: moralizar. O objetivo de tais são as “ensinanças”: educação religiosa, cuidados com a disciplina, o corpo e a conduta social.
       O tratado de D. João I chamado Livro de Montaria, aborda a caça ao javali. A caça como montaria, muito bem visto nesse período, pois era uma forma de distração para não se cansar e, também, treino para os tempos de guerra, ajudando a manter as habilidades guerreiras em tempos de paz. O ato de caçar e cavalgar descansavam o intelecto facilitando o cumprimento das principais obrigações reais.
      D. João deixa clara a sua convicção de que toda e qualquer atividade a qual o rei se dedicasse não devia nunca suplantar as responsabilidades com o governo das suas gentes e terras. Os livros destinados aos príncipes tinham de contribuir tanto para o engrandecimento dos virtuais leitores como para o proveito do reino.
      Outro tratado de como cavalgar é produzido por D. Duarte, chamado Livro da ensinança de bem cavalgar toda sela, destinado não aos reis e príncipes, mas aos cavaleiros e escudeiros. O livro faz menção as ações humanas: as virtudes, os vícios, a força, o domínio do corpo etc. Há a preocupação com a educação dos seus contemporâneos, ou seja, os nobres, quais os proveitos de se cavalgar e caçar, comprovando assim as preocupações com a pedagogia de um ponto de vista prático, não deixando de lado a formação moral dos seus leitores.
       D. Duarte escreve também outro tratado chamado Leal Conselheiro que juntamente com o de seu irmão, o Infante D. Pedro chamado Livro da Virtuosa Benfeitoria, são classificados como doutrinas da boa conduta social. Nesses livros, a moralidade ganha corpo, pois aos governantes cabia desempenhar um papel previamente definido, cujo fundamento estava no cuidado consigo, ou seja, na busca de aperfeiçoamento moral e espiritual, tendo por fim o bem estar dos seus subordinados. Competia às obras escritas auxiliar os reis, os princípes e os senhores na difícil missão de se conduzirem bem a si próprios para se tornarem aptos para conduzirem os outros.
       O Livro da Virtuosa Benfeitoria como no Leal Conselheiro, o objetivo é a formação dos dirigentes, fazendo-lhes conhecer seus deveres e seus privilégios devido ao seu lugar na sociedade, na hierarquia. Mostram os atos que fazem com que reis sejam designados como virtuosos ou tidos como pecadores, no intuito de construir modelos de conduta considerados ideais.
        D. Duarte em Leal Conselheiro fragmenta a sociedade e, a partir dessa fragmentação,  relata as competências de cada um, alertando sobre os prazeres em devaneio, recomendando aos nobres cuidados com o corpo e a consciência. Aconselha, também, sobre o uso das faculdades humanas em busca das virtudes para fazer o bem, em busca da salvação. Sempre tendo como objetivo construir um modelo de boa conduta.
       Essa ideia de virtude e pecado se define a partir de parâmetros fixos, instituídos pelos valores morais defendidos pelo cristianismo. Ele realiza uma analise acerca do assunto: o que move as condutas, a qualidade das condutas, o bem ou o mal e as vantagens ou prejuízos que são propiciadas através dessa conduta. Através desses pensamentos que D.Duarte procura atingir seu objetivo pedagógico, sintetizando que a maior virtude de um homem é a lealdade.
       O Infante D. Pedro em o Livro da Virtuosa Benfeitoria aborda a organização da sociedade sustentada pelos senhores sobre o fundamento ético da governação. O tratado é dirigido aos reis e príncipes, pois eram deles a função de distribuir benfeitorias. Apresenta também os motivos nos quais os súditos deviam respeitar os reis e lhe serem fieis.
      No livro, observamos a construção de uma teoria da estrutura da sociedade, onde o senhor sustenta esta sociedade pelo princípio da governação. Com o exercício do poder, os senhores se aproximavam de Deus, pois enquanto este regia o mundo, os reis eram responsáveis pelos seus senhorios. O tratado cita as condutas dos senhores e a análise do benefício como algo moral que deve ser desempenhado em busca da honra e positiva fama. Através disso, o Infante D. Pedro propõe o seu objetivo pedagógico no intuito de encaminhar os homens aos seus afazeres, fazendo com que suas ideias sejam postas em prática. Assim, o livro configura-se como um tratado de ética religiosa e social.
        Resumindo, a publicação de livros em Portugal aumenta no século XV por diversas razões, fazendo com que após sua independência de Castela e ascensão da Dinastia de Avis, as publicações se intensifiquem, pois os senhores se identificam com uma cultura livresca onde o conhecimento é acrescentado como uma qualidade a mais dos senhores e que, anteriormente, era reservado aos clérigos. Os senhores escrevem para seus descendentes ou outros nobres com o intuito de educar, como em tratados de teor técnico ou de forma explícita, os modelos de conduta a serem seguidos para se tornarem dirigentes virtuosos e, acima de tudo, alcançar a salvação.
       Para a escrita de tais tratados pedagógicos são feitas referências a livros religiosos, mas também a filósofos da Antiguidade em relação aos seus aconselhamentos, utilizando exemplos virtuosos ou viciosos na fundamentação de um caminho a seguir pelos novos governantes, ou seja, um trabalho pedagógico que visa à construção da imagem do governante na sociedade.

Resenha Crítica feita pela mestranda Alba Belmira
22/07/2015
      



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